Mãe, Mamãe, Manhêê

Já te contei que tenho cinco filhos? Sim, é isso mesmo, cinco! O que acontece é que apenas dois estão aqui comigo e os outros três já estão em casa, juntos do Senhor a nos esperar. Depois de um certo tempo de lutas, muitas lagrimas e incertezas fiquei com a impressão que não ouviria muitos “Manhêeeee” pela casa. Quando me casei, a ideia era ter uma família grande, com mesa cheia, sofá completo e ainda uns pelo tapete. Como eu queria! Sabe aquela confusão de domingo? “Mãe, cadê meu brinquedo”? ou “Mamãeeeeeee, quero comer”! ou “Quero colo, mãe”!

            Deus, então, me deu Davi, que foi nosso por 15 dias. Depois veio Danilo, o menino inteligente e amoroso que me acorda todos os dias com beijinhos e seus mimos matinais – palavras dele. Três anos depois, lá estava eu, com uma barriga gigante, pés inchados e nariz imenso, a esperar duas meninas gêmeas: Elisa, que esteve conosco apenas 07 dias e Fernanda, que ficou com mamãe por 08 meses. Quatro, esse foi o meu número, dois meninos, duas meninas e apenas um comigo. Então, era isso! Ficamos assim, nós três pela casa. Era bom, acredite! Risadas, descobertas, conquistas, joelhos ralados, músicas, bolas, amor; muito amor. Eu precisava do pequeno muito mais que ele de mim. 

            Trinta dias. Trinta, apenas isso. Fomos três por trinta rápidos dias.

Uma ligação, algumas palavras, muito choro e gratidão. Ele estava lá e nós aqui. Ele era nosso e nós pertencíamos a ele. Miguel chegou na família com 10 meses; bochechas enormes, risinho discreto no cantinho da boca. Quando o pegávamos no colo, fosse quem fosse, ele rapidamente deitava a cabecinha no nosso peito e esperava o próximo chamego. Nasceu em nosso coração! A sensação era que, na verdade, ele sempre foi nosso e que nunca havia sido diferente; nunca fomos nós sem ele. Agora, minha casa já tinha duas vozes potentes a me chamar a toda hora. 

Só quem é sabe, e ser mãe é, de fato, uma dádiva, um presente, uma grande benção. Mesmo depois de não ter ouvido a voz de seu criador, Eva, a primeira mulher, imerecidamente, se tornou mãe em meio a dores e muitas e muitas gerações depois, algumas de nós vive essa experiência radiante, o que Paulo vai chamar de “missão”, em sua carta à Timóteo: “Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso”.  Ele explica que a mulher não alcançará a real felicidade por pregar a palavra – era esta discussão – mas sim, por dar à luz, filhos. Calvino diz que a felicidade da mulher está ligada à obediência a Deus e sua Palavra[1]. Semelhantemente, William Hendriksen diz que ela deve influenciar de baixo para cima, ou seja, começando pelos filhos[2]. Deus manteve isso em nós e realmente é uma árdua e grata missão. 

Tantas coisas estão embutidas nisso: dar banho, cortar unhas, pentear os cabelos, escovar os dentes. Amamentar, alimentar, fazer receitas jamais pensadas com abobrinha, chuchu e beterraba, na tentativa de fazê-los saudáveis.  Brincar de boneca, de herói, marinheiro e esconde-esconde em meio a dores nas costas. Responder questões da língua portuguesa, inglesa e até holandesa; a descoberta do Brasil, Monalisa de Da Vinci e do Cruzeiro do Sul. Ser dona do beijinho que sara, do abraço que conforta e o colo que protege. Porém, acima de todas e tantas atividades, está o maior ensino de todos: Amar a Deus sobre todas as coisas. As vezes a tentativa de acertar no letrado e na boa educação, tira o foco daquilo que realmente importa. Nosso tempo, as vezes tão escasso, tem nos tirado o prazer de ensinar sobre Deus nosso Senhor e Rei. Temos nos enganado achando que histórias rápidas, rasas e repetitivas na hora de dormir, são suficientes para fortalecer músculos e ganhar massa espiritual. Mães tem muito a contribuir, a construir e a compartilhar. 

Há uns meses, uma querida amiga postou uma foto da pública profissão de fé de sua primeira filha, que aliás, vi pititica. Partiu da própria mocinha o desejo de estudar e se preparar para esse importante momento.  A foto nem precisava de legenda; no olhar dos pais estava a alegria quase que inexplicável daquela decisão. Fiquei por dias pensando: enxergar que as horas de dedicação nos cultos domésticos cheios de perguntas atravessadas e desconexas, a atenção na pregação de domingo, por vezes perdida, por conta dos: “Preste atenção, vire pra frente, feche os olhos, não, não pode sair, abra a bíblia”; todo tempo, cansaço e olheiras, resumidos em: “Creio em Deus Pai, Todo Poderoso, criador dos céus e da terra”, valeram a pena.  Alegria maior não há. Sem dúvida, este deve ser um dos grandes prazeres de uma mãe:

Que nesse dia, nosso maior e melhor desejo seja cumprir com excelência o chamado feito a nós. Que nossas casas sejam tomadas por cores, sabores e perfumes. Que você seja chamada, lembrada, amada muitas vezes e que sinta uma imensa alegria ao ouvir: “Mãe, mamãe, manhêeeeeeee”!


[1] CALVINO, João. Pastorais. 1ª ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2009, p. 74.

[2] HENDRIKSEN, William. 1 e 2 Timóteo e Tito. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.142. 

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